PATRICIA FURLONG 

Paulo Klein

Patricia Furlong

Para quem observa hoje, - entre o êxtase e o extático – os paraísos botânicos pintados por Patricia Furlong, não imagina que seja a mesma artista que mereceu o comentário a seguir da jornalista Agélica de Moraes ( in O Estado de São Paulo/Caderno 2 – 16 de novembro – 1992)... “Essas interferências  deram origem tanto a trabalhos de influência concreta como a obras de inegável sabor neopop. Uma das peças melhor resolvida da exposição acontece a partir de um anúncio de cigarros Marlboro. As letras banais dão lugar a uma bem equilibrada composição abstrata. Conclusões maduras também acontecem nas obras em preto e branco nascidas apenas de letras. Mas há estudos quase escolares como a tela com o logotipo de Mac Donald´s que resistiu à tentativa de uma nova visualidade. Ou a tela Carrinho, onde se instala um pop mal digerido. Meu interesse maior é a palavra, a poesia saída desse lixo urbano”, diz a artista. Aos 37 anos, Patricia tem muito tempo pela frente para aperfeiçoar a bússola”. 
Pois Patrícia Furlong aperfeiçoou  sua bússola, hoje reside em uma casa ampla, com uma reserva de Mara Atlântica particular, que ela chama de jardim, na Granja Viana, próximo à capital paulista – onde é vizinha de Luis Paulo Baravelli, com quem troca receitas de arte e culinária – e pinta, com rigor acadêmico, impressionante e impressionista, telas embebidas em luz solar e clorofila. Ela recorre aos textos críticos e registros da mídia de décadas passadas, cuidadosamente arquivadas em seu site pessoal, para justificar a alternância de suportes em sua trajetória e defender sua tese, de que a coerência de seu trabalho se encontra, exatamente, nesta condição contemporânea de assumir as mudanças, de adaptar-se às transformações inevitáveis. Óbvio: ela poderia continuar vivendo, entre nuvens de monóxido de carbono, mal digerindo as invasoras mensagens publicitárias dos outdoors e se afogando em rótulos de produtos descartáveis de consumo, nos supermercados da grande cidade.
Ma a natureza so trabalho de Patricia Furlong demonstrou ser a Natureza, com a atenção ritualística que esta merece a sua celebração vital. Algo que Claude Monet, ao dar visualidade às ninfeias, sem sombra de dúvida compreendeu. “ E foi nesse reflexo que o mundo tomou, pela primeira vez, consciência de sua beleza. D mesmo modo, desde que Claude Monet olhou-as, as ninfeias da Ile de France são mais belas e maiores.”
Philadelpho Menezes tratava de algumas questões relativas à produção artística de Patricia Furlong, em texto para o Panorama de arte Brasileira – MAM São Paulo, 1999. Para ele, “a natureza do trabalho de Patricia Furlong  evidencia, também, o suporte como problema central da estética hoje. Num ambiente em que novas tecnologias dão o tom da imaterialidade digital para a comunicação estética, quando tudo existe para terminar em rede, um trabalho que sugere um contato físico do observador com a obra, desloca esse observador de seu mundo cotidiano para a esfera do jogo infantil despretensioso (mais no sentido do desinteresse atento), que faz do contato um contágio na acepção cunhada por Tolstói (em O que é Arte?), para discernir o que dá à Arte verdadeira sua natureza eficaz e duradoura (contraposta, contemporaneamente, à eficiência e ao efêmero instantâneo da cultura digital)”.
Menezes observava, que a artista introduzira com sabedoria questões cruciais da arte contemporânea, reconhecendo que, “em vez de interferir explicitamente na paisagem urbana, seus trabalhos se projetam, antes, no imaginário do observador para depois, e por meio desse imaginário, interferir na contra leitura dos elementos do cotidiano, na desautomatização do olhar do observador, depositado nas “frases feitas” do dia a dia”
Em um texto intitulado “ O Cotidiano Revisitado, de junho de 1993, a crítica Stella Teixeira de Barros destacava virtudes no processo da artista, ao dizer que a Pintura de Furlong  “ sofreu um corte abrupto, em que a matéria flutuante e o gesto largo deram lugar a outro corporeidade, impregnada de uma preocupação mais racional, de uma vontade de redimensionar razões e desrazões do mundo cotidiano que a rodeia, que nos rodeia”.
Furlong relembra este texto ao falar de seus jardins, série de pinturas inéditas que está desenvolvendo e que retomam, de modo consciente e com maturidade, “ a natureza artesanal e laboriosa da Pintura”, “ que “inverte a pretensão fotográfica da instantaneidade e, assim sendo, corresponde a uma questão que (me) sensibiliza e que encontra eco em movimentos de outros grupos e áreas de atuação que não o das artes visuais”.  Nesse sentido, ela inclui-se naquela multidão citada por Orkui Enwesor em seu texto introdutório à XI Documenta de Kassel: “Today´s avant – garde is so throughly disciplined and domesticated within the scheme of Empire that a whole  different  st of regulatory and resistance models hás to be found to couterbalance Empire´s attempt to totalization. Hardt and Negri call this resistance force “ the multitude”. If the Empire´s couter-model  is to be found in the pressing, anarchic demands os multitude (…)”.
Ainda as palavras, escritas há mais de uma década por Teixeira de Barros sobre o trabalho de Furlong, servem como luva ao que a artista propõe com suas paisagens de verdura, ensolaradas, carregadas de vitalidade e de energia: “operando com postulados e simbologias das megalópoles do final do século,  esvaziando provocativamente seus significados, Patricia reinventa-os com um olhar irônico nas manchas e máscaras que recobrem as imagens impressas. Anula imagens, recorta-as, retalha-as, incorpora outras. É quase um novo trompe-l’oeil que questiona, com densidade cética, realidade e ilusão. Das intervenções resultantes do processo de destruição, concetração e distenção de signos e símbolos, nasce uma nova sintaxe temporal e espacial. Por isso mesmo , apesar de uma primeira aparência, esta obra nada tem a ver com a Pop Art de época ( Neo-Pop) pois não sustenta nenhum de seus princípios conceituais. São obras que questionam o próprio ato da Pintura ao mesmo tempo que questionam as técnicas de reprodução. As transparências são fundadas na opacidade dos objetos, que a tinta recobre e, certamente Walter Benjamin teria gostado das metamorfoses que essas emoções subjetivas procuram resgatar pois, no mais das vezes, elas sequer afloram da memória inconsciente: apenas uma sensibilidade aguçada pode trazê-las à tona”.

Paulo Klein para o livro THE ART BOOK BRASIL/figurativos, Editora Décor

2010 - presente
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