RASPADINHA

Juliana Monachesi

RASPADINHA POR JULIANA MONACHESI
 

A obra de arte como celebração da experiência ordinária tornou-se moeda corrente na arte contemporânea: vai da auratização do refugo urbano à interatividade a qualquer preço. O trabalho de Patricia Furlong desvia destas armadilhas, mas se inscreve habilmente na fronteira delas ao flertar tanto com o repertório cotidiano de quem vive em lugares como São Paulo quanto com a participação do espectador.
A trajetória da artista tem como singularidade subverter códigos urbanos. No início dos anos 90, Furlong vedava anúncios em páginas de jornal, esvaziando comunicados; em seguida trabalhou com fragmentos de outdoors, anulando/estetizando mensagens publicitárias; no final da década passou a manipular sinalizações de trânsito, explorando as possibilidades poéticas da assepsia de placas como “Desculpe-nos pelo transtorno”.
O jogo de palavras com essas placas já imbuía no significado da obra a ocorrência intersubjetiva: ao espectador cabia reordenar as letras. A participação fica configurada definitivamente na produção da artista como o trabalho Olvidar es Morír (2000), um diagrama em que se podia conectar apelidos a frases de faixas de rua (“Te amo”, “Obrigada pelos x anos de alegria” etc). A ligação era feita com fechaduras móveis, que trancavam com chave o sentimento e a pessoa. Raspadinha avança na exploração desse universo de seqüestro da emoção alheia. A declaração pública do amor funcionando como uma condenação ao aprisionamento. A obra é um painel inteiramente negro que compele o espectador a uma postura performática: raspar para “descobrir” as palavras, arriscando a sorte. Ali vai encontrar emoções que nada respondem, nada resolvem, aprisionam.

Juliana Monachesi, 2004

Texto para o catálogo da exposição no MariAntonia.

2010 - presente
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