O JARDIM PERFEITO DE PATRICIA FURLONG

Regina Johas

O JARDIM PERFEITO DE PATRICIA FURLONG

Posto diante da confusão das coisas, o jardim organiza em seu microcosmo, para nós, a extensão do mundo . O elaborado jardim de Patrícia Furlong nos é apresentado frontalmente. Estruturado. Desenhado. Um jardim qualificado pela exuberância de matizes de verde, distribuídos nas dobras da complexa paleta de tons e semi-tons, verdadeira sinfonia de luz. Fechado, detalhado e especificado, o jardim evoca e invoca uma natureza em obra. Uma natureza que, domesticada e ordenada em relações, permanece bastante “visível” sob a forma de um quadro. Com seus limites (a moldura), seus elementos necessários (formas de objetos coloridos) e sua sintaxe (simetrias e associações de elementos) . Trata-se aqui de um jardim perfeito, que vive desde sempre em nossa memória na forma dada de uma lembrança pura. Entretanto, quando estamos na frente destas imagens – pinturas? fotografias? – nos vemos tentados a perguntar: afinal o que de fato a artista nos traz? A perfeição de um jardim? 
Mais do que pinturas, sempre entendi que esta produção estava menos ligada às questões de ordem pictórica e mais com o fato de serem imagens geradas em condições muito específicas, entre elas, o de serem feitas in loco e retratarem paisagens naturais – palavras da artista. Mas poderemos creditar a particularidade destas pinturas/imagens – sua vontade de reinventar significados – ao fato de serem elas retratos de paisagens naturais, feitos “in loco”? Perguntamos: existe a naturalidade da paisagem? O que significa este “in loco”? A condição “in loco” nos dá alguma garantia? 
Se tomamos o clássico e amplamente citado texto de Walter Benjamim que trata da pintura, da fotografia e da idéia de aura da obra de arte, vemos que o autor associa a noção de autêntico ao testemunho histórico da obra (no caso, a pintura) perante a cena representada . Na reprodução técnica (a fotografia), tal testemunho histórico vacilaria, e com ele, a autoridade da obra. O autor afirma com isto que a aura, na arte, está vinculada ao “in loco” que marca sua realização, o seu aqui e agora. Para nós, nos dias de hoje, a situação é outra. Mediados por inúmeros dispositivos, sabemos o quanto uma relação inaugural entre nós e a “paisagem” não é possível. Ou seja, sabemos que a relação presencial perante uma cena não traz a garantia de uma verdade, não configura um testemunho histórico inquestionável.
Já é conhecimento investigado e estabelecido o quanto a pintura, no passado, teria articulado a impressão (o sensível) e o conhecimento (a razão cognoscente) numa fórmula – o artifício da perspectiva – e garantido, para nós, a unidade do sujeito. Toda a natureza (o exterior) está lá, em uma apresentação que reduz sua dimensão ao que pode ser captado no feixe visual; mas essa redução só pode se dar à medida que a totalidade for mantida, a unidade constituída – uma unidade mental... . A idéia de natureza, concluiu-se, só aparece vestida por meio da linguagem, ela própria historicamente constituída. A naturalidade da paisagem é um constructo, e a condição “in loco” não garante mais o transporte da imagem para o original, uma valendo pelo outro, pois a noção de original tornou-se estranha para nós. 
O jardim perfeito de Patrícia Furlong não é, portanto, mais uma tentativa de representação. Não se trata de representar; as paisagens virtuais são concepções . Imagens de segunda natureza, estes trabalhos – paisagens dentro de paisagens – são inserções, imagens dentro de imagens. Pensamos que vemos e não vemos um jardim, pois já não se trata de afirmar o valor do jardim, ou a equivalência entre um artifício e a natureza. Aqui, precisamente, reside sua contribuição às tentativas contemporâneas de reinventar de significados. O que vemos é o próprio dispositivo: imagem se fazendo imagem. 

Regina Johas, 13/07/2010

Texto para o catálogo da exposição na Galeria Penteado.

2010 - presente
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