SOBRE PATRICIA FURLONG

José Roberto Aguilar

SOBRE PATRÍCIA FURLONG


Patrícia Furlong telefonou-me pedindo para escrever um texto de apresentação para o catálogo de sua exposição. Respondi que no mínimo ela tinha se enganado de Aguilar. Ela respondeu: "Não, é o pintor que eu quero". Perguntei sobre os críticos, isso é tarefa deles. Eles estão ocupadíssimos respondeu ela do outro lado da linha. Ainda tentei dissuadi-la argumentando que só escrevi apresentações de amigos como testemunho de uma mesma geração e experiências no mesmo espaço temporal como Granato e Ângelo de Aquino. Ela insistiu em mostrar seus quadros. Desliguei o telefone e pensei no Mario Schenberg. No iluminado Mario. Nos anos 60 e 70 ele apresentou centenas de artistas inclusive eu. A visão de Mario resgatava qualquer imagem, gesto, intenção, cor ou o que fosse e os traduzia historicamente em linguagem universal. Autonomia posterior de vôo é outro assunto. Mas naquele momento eles receberam mapas e bússolas. Patrícia, que pena que você não conheceu o Mario nessa época, ele iria adorar o seu mergulho e resgate de imagens do inconsciente arquetipal, da sua coragem, da leveza e poesia de seus gestos, as cores quase que fluem vindas de um manancial profundo, sua aderência à Dionísio e à lembrança do matriarcado. O Mario veria que sua pintura não é apolínea, o deus da ordem, das regras, do masculino solar. Suas pinturas se intuem na sombra. Te digo Patrícia vai precisar muita coragem para vencer esta. O mundão quer Apolo, quer clareza, quer definição, quer fundamentos de propósito, quer razão, quer força muscular, impacto e novidade. Pô, Patrícia, tu vai levar chumbo grosso porque tu não é nada disso. Você navega na intuição, na fragilidade, na sugestão. Que pena que o Mario ainda não conheça a sua pintura e escreva sobre, mas agora ele está navegando a toda luz e luz é suficiente per si. Ele diria coisas fantásticas sobre sua pintura, mas eu não, quem sou eu pra falar disso, pintor é burro, é inarticulado, a gente só maneja linguagens mudas. Mas nossa doce vingança, Patrícia, é que a intuição dá de 10 a 0 na razão. "Deixa que digam, deixa que falem, eu não estou fazendo nada você também". Agora, o que me impressionou (é insignificante mas muito revelador) foi o jeito com que você tirou cinco quadros de 1,20 x 1,70 de dentro de sua perua Santana. O modo como você entrou no meu atelier. Eu não lhe ajudei porque fiquei fascinado com a maneira de você carregá-los. Como se eles fossem coisa viva. ELES SÃO COISAS VIVAS !

José Roberto Aguilar, 21 de março de 88

Texto para o folder da exposição na Galeria Sadalla.

2010 - presente
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