PATRICIA FURLONG - O COTIDIANO REVISITADO

Stella Teixeira de Barros

PATRÍCIA FURLONG - O COTIDIANO REVISITADO

  
A pintura de Patrícia Furlong sofreu um corte abrupto há alguns anos, quando a matéria flutuante e o gesto largo deram lugar a outra corporeidade, impregnada duma preocupação mais racional, duma vontade de redimensionar razões e desrazões do mundo cotidiano que a rodeia, que nos rodeia.
Na primeira etapa de suas novas pesquisas, foram as folhas de jornais, os classificados mais precisamente que mereceram suas intervenções. Ao reinventar na diagramação dos jornais - através de vedações meticulosas - o trabalho silencioso e persistente dos manuscritos em iluminuras medievais, criou um resultado visual que é outro, é certo, pois nem mensagem, nem conteúdo, nem suporte tem qualquer vínculo com o laborioso e anônimo fazer medioevo. Todavia, o resultado plástico, assim como a manufatura miniaturista podem nos levar à lembrança de uma velha página de algum sofisticado antifonário. Labor às avessas dos antigos monges, pois em vez de desvendar paralimpsestos, a artista cria, através das vedações fragmentárias, um novo ocultamento, propiciando pausas mais quietas, mais tranqüilas que os excessos de informação dos classificados a nós impingidos todos os dias. Numa dupla mão, resgata a mansuetude monástica que o século da comunicação em massa já não mais permite apreciar e, concomitante, interrompe esse bombardeamento de informações, ocultando de nós mesmos nosso próprio tempo, mesmo que por instantes, o que nos obriga a refletir sobre o redemoinho cibernético sob o qual vivemos. 
Sem fugir nem do seu tempo nem do seu espaço circundante mas enfrentando-os até com certo humor, no momento seguinte Patrícia se volta para a fotografia urbana e o xerox, mantendo a conceituação do seu trabalho no mesmo nível. As vedações se fazem também sobre o excesso da poluição visual , agora a das ruas, nos anúncios e reclames, nas chamadas quase subliminares a que os cidadãos são perversa e permanentemente submetidos.
Há uma re-invenção da cidade nessa paz procurada, além da plástica, social, que emerge do gesto de ceifar a informação excessiva e extenuante. As intervenções da artista produzem um ar rarefeito e congelado, já indicados nas pinturas de Eduard Hopper mas sem a severidade realista e a tristeza permanente deste. Nas obras de Patrícia a paz não exclui o movimento, o bom humor e a cor esfuziante. O que ela faz é assinalar o seu entorno, ao mesmo tempo que o reescreve e o redimensiona.
Do mesmo modo a estratégia se mantém nos últimos trabalhos, feitos sobre pedaços de out doors. Irreconhecíveis em suas mensagens diretas, guardam ainda a notícia remota de seu intento primeiro, desmanchados e suspensos pelas "maldades cirúrgicas" da artista. Assim, um carrinho de supermercado pode ser reconhecido com depositário de toda a mercadoria que ali pode caber, mas o consumo perdeu qualquer apelo : Não dá mais para saber o que poderia ser tão gostoso consumir, por conta de tanta sofreguidão - a montanha consumista é demasiadamente gulosa para não ser devoradora do próprio homem. Os produtos perdem sua identidade, assim como nós perdemos a nossa, quando nos perdemos na cultura de massas.
Operando com postulados e simbologias da megalópoles fim-de-século, esvaziando provocativamente seus significados, Patrícia reinventa-os com um olhar irônico nas manchas e máscaras que recobrem as imagens impressas. Anula imagens, recorta-as, retalha-as e incorpora outras. É quase um novo Trompé - l'oeil que vai questionar com densidade cética realidade e ilusão. Das intervenções resultantes do processo de destruição, concentração e distensão de signos e símbolos nasce uma nova sintaxe temporal e espacial. Por isso mesmo, apesar de uma primeira aparência, esta nada tem a ver com a pop art (de época ou neo-pop) pois não sustenta nenhum de seus princípios conceituais. São obras que questionam o próprio ato da pintura, ao mesmo tempo que questionam as técnicas de reprodução. As transparências são fundadas na opacidade dos objetos que a tinta recobre e certamente Walter Benjamin teria gostado das metamorfoses que essas emoções subjetivas procuram resgatar, pois no mais das vezes elas sequer afloram da memória inconsciente: apenas uma sensibilidade aguçada pode traze-las à tona.

Stella Teixeira de Barros. junho de 1993

Texto inédito

2010 - presente
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