BAD BOY, FRAGILE SOUL

Ricardo Rezende

Bad Boy, Fragile Soul

Te amo por inteiro. Te tormento com meus medos. Te endeuso pelo que você é. Te quero assim mesmo. Te busco onde estiver. Te desejo de qualquer jeito. Te mexo no coração. Te sujo de amor. Te pergunto por mim. Te espero aqui nesse lugar. Te ouço de muito longe. Te confio em tudo que faz. Te obedeço quando me pede. Te gozo de prazer. Te meço quando te vejo. Te vejo lindo. Te sigo onde for. Te rogo que esteja ao meu lado. Te levo para onde for. Te delato se me traíres. Te vicio com o meu amor. Te como inteirinho. Te acanho com tanto desejo. Te rezo de bençãos. Te confronto com carinho. Te sonho para sempre. Te cego somente para mim. Te apago de mim...

Começo esse texto, que não deixa de ser também um processo criativo, sendo cúmplice da própria artista, interagindo como ela mesmo pede ao invadir e acrescentar às frases reveladas na parede negra, as minhas próprias interpretações ou necessidades atuais, que gostaria, fossem respondidas na força de seu trabalho se pudesse agir sobre ele agora. Trata-se de uma instalação composta  de frases escritas em parafina, sob uma camada de tinta negra aplicada sobre fundo branco. O público é solicitado à  participar ao raspar a tinta escura da superfície e desvelar assim as centenas de frases na primeira pessoa que evocam significados à espera de respostas. É uma ação muda ao som seco do gesto de raspar uma superfície dura com um objeto qualquer sólido que irrompa o silêncio pesado  que impera geralmente no espaço expositivo dos museus.

Trata-se também de um gesto poético, raspar a parede cega e fazer surgirem palavras que tornam-se a parte plástica mais importante da obra. O texto que parece desconexo, transforma-se em uma escritura nessa operação artística.  O público solicitado a agir sobre a parede até os seus limites mais inacessíveis, atingidos por uma escada colocada ao lado propositalmente, ajuda a criar o corpo da obra ou a sua presença absoluta no espaço da exposição.

A palavra integra a obra da artista desde o final dos anos 80 e tem o viés conceitual dos anos 60, que vivia então uma crise de representação do que seria a obra de arte. O uso do texto ou palavra como signo artístico icônico, apenas reforçava a dissolução da idéia do que se entendia por arte até ali. Furlong é herdeira desse desse pensamento e transforma a escrita em parte constitutiva da obra que só pode existir, por sua vez, com a participação das pessoas acostumadas geralmente a apenas contemplar.

Sou também público, afora minha responsabilidade com esse texto, eu escrevi no primeiro parágrafo o que procuraria nas frases soltas que viesse a desvelar na parede negra, se tivesse acesso à instalação em que estou diante do computador. Vejo o trabalho, a parede propriamente dita, como se fosse um oráculo onde encontraríamos respostas para nossos anseios e desejos de nos interrelacionar. De encontrar solução para o meu sofrimento. Um sentimento de estar sozinho no mundo. Dilemas do homem contemporâneo urbano, que com tanto avanço disponível na tecnologia das mídias eletrônicas, que facilitam o contato virtual entre as pessoas , ainda encontra dificuldade para se comunicar interpessoalmente. Parece ser essa a idéia da instalação apresentada pela artista, a de criar um veículo de comunicação dela com o público, do público com a artista e dele com ele mesmo. Uma metáfora que explicita as dificuldades da comunicação humana no limiar do século XXI.

Ricardo Rezende, 2003,

Texto para o catálogo da exposição no Museu de arte de Ribeirão Preto. (MARP).

2010 - presente
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